"- Oi" - disse ele.
Mas quem era ele? Hã? Sequer sabia onde eu estava.
Alguns segundos foram necessários para que eu me localizasse. Era sábado de manhã e eu, descabelada, com a maquiagem toda borrada, era acordada por um desconhecido. A noite tinha sido longa, muito agitada e exciting.
Note que eu poderia ter traduzido o termo "exciting", mas no inglês o mantive, na esperança de que você o entenda como algo sexual, "excitante".
Voltando ao assunto... lá estava eu, cansada demais após uma deliciosa e bastante cansativa noite, sendo acordada por um desconhecido. Não, não tinha ido pra cama com alguém, estava num ônibus e a foto abaixo poderia ilustrar a situação:

Com alguns diferenciais. No evento acima registrado:
- Tinha 23 anos... já agora, aos 30, sou mais velha, estrienta e amarga.
- Num vagão de trem dormia, com privacidade... já agora, viajo de ônibus, lento e freqüentado por pessoas carentes que desconhecem o conceito "espaço alheio".
- Ponto A era Roma, ponto B, Milão. Cidades de riqueza, significante história e beleza... já agora, ponto A era São Paulo, ponto B, Rio de Janeiro. Cidades de imundície, significante atraso e desorganização.
- Fui acordada por um homem. Lindo e adorável... já agora, era acordada por um troço. Horroroso e doentio.
Ele queria se despedir de mim. Sim, ele queria SE DESPEDIR DE MIM - e por isso me acordou.
Um troço. Horroroso e doentio. E sádico, e desgraçado. Ele cutucou meu ombro, dizendo "Oi"! Um nojento.
Confusa, roubada do justo e profundo sono, me mexi. Virei, olhei, nem sabia quem era o monstro ao lado de minha poltrona estendido.
"- Oi?" - repliquei.
"- Raquel, seu nome, né?"
"- Ééé!?!"
"- Eu desço daqui uns 5 minutos. Vim (-me) despedir."
Filho da puta!!! Nojento!!! - refleti.
"- Ahhn? Ahh. Tá. Boa viagem" (réplicas sonolentas, imprecisas, já que a essa altura, sua viagem encerrava; e eu definitivamente não desejava que jornada alguma em sua vida fosse boa).
"- Tchau!" - disse o malfeitor, SORRINDO!
Que tipo de pessoa acorda a pessoa sentada na fileira de bancos lateral, para notificá-la do término de sua viagem?
Não dá pra entender, nunca entenderei. Até agora estou confusa.
Isso tudo porque, quando entrei no ônibus naquela manhã, respondi a alguns de seus questionamentos:
"- Seis e dez."
"- Não (não moro no Rio), tô indo a passeio."
"- Rachel"
"- Canadá (ia dizer "Estados Unidos", mas "Canadá" fica mais longe)."
"- 11 anos (morando fora)".
"- Uns dois dias só (no Rio - mentira)".
"- Não, brigada (não quero bala halls)".
Hoje, três dias após o ocorrido, me encontro mais calma e apta a falar sobre o assunto. Não foi fácil, tento compreender o que naquele ônibus se deu. Acho que jamais encontrarei uma resposta, mas preciso aceitar como fato que existem pessoas assim nesse mundo. As estrias, que até há poucos dias cobriam só meu corpo, agora se estendem à minh'alma, cicatrizes que para sempre levarei comigo. Por que fui a vítima? Não sei, mas pretendo não derramar mais lágrimas por isso. Sei que não posso - não devo! - me culpar. Estava no lugar errado, no momento errado. Fui vítima, minha integridade emocional foi violada, mas a vida deve seguir. Agora é bola pra frente!
Ps: o "excitement" da noite anterior, foi pelo show do Moby, em SP... saí de lá direto pra rodoviária, rumo ao Rio, onde se deu o show do Moby na noite seguinte.

hehehe
ReplyDeletemuito bom!
cadê a foto do "bonitão"?
ReplyDeletekkkkk é fía, vc já esteve em situações melhores...
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